Em Roma, na Basílica chamada de Santa Cruz em Jerusalém, existe um dos supostos testemunhos da paixão de Jesus. É certamente um objeto muito interessante. A Igreja se chama “Santa Cruz em Jerusalém” pois ela foi edificada em um lugar onde foi depositada terra vinda de Jerusalém. Isto deu-se por ordem da imperatriz Helena, mãe de Constantino, o imperador que libertou os cristãos das perseguições (ano 313) e pouco depois assumiu o Cristianismo como religião oficial do Império Romano (ano 319).
Um pouco de história — Constantino era pagão e estando em batalha decisiva contra Massencio às portas de Roma, teve uma visão partilhada com seus soldados. Ele vira uma cruz nas nuvens e a frase: “Com este sinal vencerás!” Sendo sua mãe Helena uma cristã ele sabia o significado do sinal: era uma referência a Jesus Cristo, judeu executado há mais de dois séculos na província da Judéia. Eram incontáveis os seus seguidores que não se intimidavam com as constantes proibições de culto e perseguições de que eram alvo. Até a imperatriz Helena tornara-se cristã! Seria então muito difícil assumir como símbolo de luta e vitória o que era sinal de morte vergonhosa e desprezível — a cruz. Porém, depois de hesitar, Constantino decidiu-se e foram gravadas sobras as armas e escudos a cruz.
A batalha que se seguiu foi terrível mas Constantino saiu vitorioso. Não deixou de exibir orgulhosamente os sinais de sua superioridade e humilhar os inimigos. Reconheceu porém que a cruz, sinal dos cristãos, fora seu grande trunfo e dera força, ânimo e vitória. Apoiado pela mãe Helena, Constantino iniciou aquela que é, provavelmente, maior reviravolta da história. Os cristãos, de perseguidos e frágeis, passaram a ser protegidos e muito brevemente deteriam o poder e o apoio irrestrito do Imperador. Constantino unificara o Império Romano e percebera que o Cristianismo seria a força que o manteria coeso.
Passou então o imperador a apoiar todos os esforços da Igreja, facilitando sua presença e crescimento em todos os sentidos. Mandou construir as grandes basílicas romanas que são os fundamentos das Basílicas atuais; protegeu os túmulos de Pedro e Paulo; convocou todos os Bispos de então para um Concílio e favoreceu a expanção da Fé. Isto tudo muito embora ele mesmo tenha sido batizado somente no leito de morte, tendo sido durante a vida cruel com seus inimigos verdadeiros ou supostos.
Constantino mandou explorar a Palestina, sob a supervisão de sua mãe Helena, em busca de sinais da presença terrena de Jesus. Em Jerusalém, cidade tantas vezes destruída, e em outras cidades, Helena encontrou muitas coisas interessantes. A mais surpreendente foi a suposta Cruz do Senhor e a inscrição da Paixão de Jesus.
Depois de iniciar a construição das Basílicas da Natividade em Belém e da Anástasis (Ressurreição em grego), em Jerusalém, Helena voltou à Roma, trazendo consigo terra da cidade santa que foi derramada no solo para a construção de sua capela, no Palácio Sessoriano, na entrada de Roma, próximo à Via Ápia. É esta a origem da chamada Basílica de Santa Cruz em Jerusalém.
As relíquias — Helena porém não trouxe somente terra, mas também alguns objetos que serão marcantes para sempe. Parte da madeira da Cruz do Senhor; os pregos usados na crucifixão; espinhos da coroa; a haste horizontal da cruz do “bom ladrão” e, o mais surpreendente, metade do letreiro que identificava o criminoso e seu crime como encontramos em João 19, 19: Pilatos redigiu também um letreiro e o fez colocar sobre a cruz. Nele estava escrito: “Jesus Nazareu, o rei dos judeus”.
Este é o chamado Titulus Crucis ou título da Cruz, que ainda encontramos na Basílica de Santa Cruz trazido há quase mil e setessentos anos por Helena junto com as outras relíquias, mas que teve uma história diferente. A parte da Cruz foi lascada inúmeras vezes; descobriu-se muitos outros pregos da Cruz em outros lugares da Europa, bem como coroas de espinhos e véus de Verônica. Havia muita procura de relíquias e criou-se um comércio promissor a respeito. Muitas relíquias eram por contato: um objeto parecido com a relíquia entrava em contato com ela e tornava-se assim também uma relíquia como aquela. Muito do que existia era falsificação barata e outro tanto era uma recordação piedosa, sem referência histórica alguma. Isto criou um sentimento de descrédito sobre as relíquias.
O título da Cruz porém foi felizmente protegido. Roma sofria constantes invasões. A cidade perdeu prestígio e segurança. Na antiguidade chegou a mais de um milhão de habitantes; porém, em alguns momentos da Idade Média chegou a não passar de uma quase aldeia, com não mais de trinta mil habitantes.
A Capela da Imperatriz Helena tornou-se uma Basílica e era servida por monges que deviam zelar pelos seus tesouros de Fé. Os tempos e a cidade de Roma sempre foram conturbados. Os monges, apoiados pelas autoridades da Igreja de então, resolveram proteger o Titulus Crucis, guardando-o dentro de uma parede e lacrando-o com reboque. Foi assim que ele esteve entre os séculos 12 e 15. Com o passar do tempo a notícia de que naquela Basílica havia a inscrição da Cruz foi sendo esquecida até que em 1º de fevereiro de 1492, os monges, restaurando algumas paredes centenárias que ameaçavam deteriorar-se, encontraram um nicho atrás de uma inscrição em pedra vermelha: Titulus Crucis, escondida sob uma camada de reboco. Esta pedra preservou-nos por séculos a riqueza de uma relíquia fascinante.
No nicho estava uma caixa fechada com o selo do futuro papa Lucio 2º, de meados do século 12. Aberta a caixa encontrou-se um pedaço de madeira muito antigo, de formato retangular, tendo o lado esquerdo e o inferior mais preservado que o direito e superior. Sobre esta tábua podia-se ler uma inscrição grega, na linha do meio, algo como latim na linha inferior e alguns traços a princípio ilegíveis que são as partes inferiores de letras hebraicas, na linha superior. O interessante é que tudo isto é escrito da direita para a esquerda. O hebraico tem esta caracterítica, mas não o grego e o latim.

Desenho do Titulus Crucis invertido para melhor compreensão. Notar os riscos superiores das letras hebraicas, no meio a inscrição em grego e na linha inferior em latim.
A inscrição — A tabuleta é conservada até hoje junto com os restos das relíquias que, supõe-se, sejam as trazidas por Helena no século quatro. O que sobrou da Cruz, depois de tantas vezes partida e lascada, foram duas pequenas canas de madeira que estão dentro de um relicário em forma de cruz. Os pregos e o espinho da coroa estão em outros relicários. Existe também um “dedo de São Tomé” que não se sabe ao certo como chegou até lá.
O Titulus Crucis porém é um dos objetos mais fascinantes de estudos. Isto porque ele contém as inscrições. Segundo os relatos antigos os operários de Helena descobriram as cruzes e outras relíquias em uma antiga cisterna. Este lugar existe ainda no subsolo da Basílica da Ressurreição, em Jerusalém. O Títulus devia ser uma tábua longa e estreita, onde devia estar escrito o nome do condenado e o motivo da condenação. Esta tábua deve ter sido serrada ao meio, com metade supostamente permanecendo em Jerusalém e a outra metade levada por Helena para Roma. De fato era comum lascar, dividir ou cortar relíquias para “multiplica-las”. A preservação integral de um objeto antigo é coisa recente. O lado esquerdo está mais preservado, e interrompe a inscrição. O lado direito está bem deteriorado, mostrando os sinais do tempo.
O Titulus devia ter originalmente uns 50 cm de comprimento por 14 cm de altura. Resta agora cerca de 25 cm por 14 cm. A inscrição é parcialmente visível. Transportada da esquerda para a direita encontramos:
— Na linha inferior: I NAZARINVS RE — I: abreviação de Jesus, Iesu em latim; NAZARIVS, de Nazaré; RE: parte de REX ou rei. O I abreviando o nome de Jesus está de acordo com o costume de abreviar nomes conhecidos. Jesus ou IESUS era um nome comum.
— Na linha do meio, em letras gregas: IS NAZARENUS B — IS: final do nome Jesus ou também uma abreviação; NAZARENUS: de Nazaré, com o curioso ditongo OU abreviado em U; B: inicial de BASILEUS, rei.
— Na linha superior restos da escrita hebraica, bem danificados pelo desgaste da madeira. Pode-se reconhecer as letras h (hê), n (nun) e v (shim). É possível reconstituir, a partir destes traços de letras e do contexto a expressão, [JShU’] N’Sh [RJ MLK HJHUDJM], onde somente o que está fora dos colchetes pode ser deduzível pelos traços; o demais é reconstituição da afirmação JeShUa’ HaNNaTZRi MeLeK HaJHUDIM — “Jesus de (da terra de) Nazaré, rei dos Judeus”.
Alguns problemas marcam a leitura do “texto” do Titulus. Primeiro, o fato de que não apenas o hebraico é escrito da direita para a esquerda, mas também o latim e o grego. Pode indicar que o escritor não tivesse suficiente informações para escrever corretamente estas linguas. Isto não me parece um problema, mas sim uma circunstância particular. Aqui mesmo eu tive de fazer adaptações nas letras para que este artigo pudesse ser lido e compreendido. Depois a falta de grande parte das linhas não é um limite intransponível, pois é desta forma que se encontram muitos documentos antigos. A própria antiguidade da tabuleta é atestada pela ciência e a paleografia (estudo das escritas antigas) que datam o formato das letras do primeiro ao segundo ou no máximo terceiro século de nossa era.
“O que escrevi, escrevi!” — O Titulus Crucis é uma relíquia, venerada pelos que a reconhecem como a tabuleta indicativa do motivo da morte de Jesus; pesquisada pelos que buscam respostas; rejeitada pelos que não a aceitam como relíquia; ridicularizada pelos que a tomam como uma das tantas falcidades em torno da historicidade da Fé. Mas é algo perante o qual não se pode ficar indiferente. Posso dizer que a primeira vez que a vi também não a valorizei. Sequer sabia que existia e foi para mim mais uma espécie de folclore da paixão. Mas, precisei voltar lá mais vezes, atraído por aquela inscrição que me questionava e hoje me assombra. Não se pode afirmar se é ou não uma verdadeira relíquia. Para mim, sim! Mas é um dos tantos mistérios que envolvem a Pessoa e a Missão de Jesus, que a ciência não esgota, a história não pode negar em absoluto e que questiona a Fé.
João 19, 21 – 22: Disseram então a Pilatos os chefes dos sacerdotes dos judeus: “Não escrevas ‘O Rei dos Judeus’, mas ‘Este homem disse: eu sou o rei dos judeus’”. Pilatos respondeu: “O que escrevi, está e permanecerá escrito”!

